Inconsciência

Minhas mãos estão sujas de sangue!
Não sementes de urucu
Nem tinta pau-brasil
Não à carne animal.
Minhas mãos estão sujas de sangue
Não de pecadores
Nem de criminosos
Não a todos os mortos.
Minhas mãos estão sujas do sangue
De muitos de minha gente
Do grito dos mudos
Do sangue dos inocentes.
  
E o caldo corre entre os dedos
Abençoando os exércitos
De boa vontade – de bom coração
Escorre pelos rostos marcados de vida
Dura
Para sempre a dor.
Minhas mãos estão sujas de sangue
Da fome de crianças e velhos
Da sede de uma palavra
Do sono dos governos
Estado de coma induzido.
Mas minhas mãos estão sujas de sangue
Porque as suas também estão
Conformadas com o que há
E principalmente com o que não há
Com os corpos sem alma
Até sem recheio
Com as bocas sem dentes, sabor, palavras.
Não é suor, lágrima, água do mar.
O sangue azul é seu
E minhas mãos púrpura
Dos corpos da guerra
Da sarjeta também
Dos cachimbos e estradas
E das mentes perdidas.
Minhas mãos estão sujas
E Lennon escapou
Porque Deus quis
Ou deu sorte
Porque alguém quis que não se culpasse
Por a maré encher
E o sol nascer
E todo dia findar.
A bala não me cala
E minhas mãos estão sujas de sangue

                                                                      Costa Pinto

  
  
Todo mundo tem um momento de revolta, tentei expressá-lo da melhor forma. Não sei se consegui. Comente e me diga!

O tempo e você

Quero a verdade como você quer
E você vive buscando você e não se encontra
E o tempo corre tanto que você já não pode ser você
e não se alcançaE eu já não posso mais ser eu.
E de tanto pensar e tentar e correr
o tempo não permite que eu seja eu
Então sou o que querem que eu seja.

O tempo te obriga a não ser você
Ser o melhor que pode ser
Ser melhor que os outros
Melhor do que é, do que pode ser.
Você longe de você.
E a única verdade é que a verdade já não está em você,
nem em mim, nem por aí.

Costa Pinto

 

 

É simples mas eu gosto deste, diz muito pra mim.

Apocalipse

Eu não ando descalço
Nem faço duas vezes o caminho
Não busco dias fáceis
E também atirei a primeira pedra.
Levitei em suas estradas
Caminhei em séculos antes de mim.
Diante de mim, pretos que carregavam pedras
Levavam em seus ombros as células
Que sustentam o monstro dominador.
Vi o sonho de liberdade em seus olhos
E a voz doce do mal de batina
Comprando almas e vendendo paz.
Caminhei sobre duras pedras
E machuquei o espírito
Subi, desci suas enormes ladeiras
Bebi de suas águas
Contemplei sua beleza
E vi os pretos que carregavam pedras
Que homens achavam valores
Vi que o dominador achava valores nas pedras
E lamento!
Ninguém viu
Menos valem todas as pedras.
O verdadeiro ouro é preto.  

Costa Pinto

 

 

Este texto é uma homenagem a todos os negros, homens e mulheres, que ajudaram a enriquecer nosso país e toda Europa católica, e a todos os homens que hoje também sofrem preconceitos. Minha homenagem à base de nossa pirâmide, aos que independente de cor, não tem dinheiro, e pior ainda, oportunidade, e carregam pedras para construir os castelos de seus senhores.
Os pobres são os pretos do mundo!

A parede branca

Chega de repente uma imagem trêmula
Passos no corredor.
Sentado numa cadeira ele observa atento
sua parede branca
Vazia
Fria
Louca
Quanto cabe nessa parede?
O que ela ainda suportaria?
Qual a cor de sua parede branca?
Sua parede branca era negra.
Viaja
Se joga dentro da parede
E os passos? E a imagem?
Agora a imagem trêmula é nítida
Mas ele não sabe quem é
mas é forte até fraquejar.
Sua parede é um espelho
E eu estou cheio de pregos
E as antigas marcas ficam
“Resíduo,
De tudo fica um pouco”.
Da parede branca ficou o branco
A necessidade de ser/do ser
Quadros talvez
Talvez imagens estáticas
Coloridas ou em preto e branco.
Sua parede branca é vazia
Sem lembranças, amor, sextas-feiras,
Sem cheiro de música ou tardezinha de verão.
Sentado numa cadeira ele chora.
De olhos fechados, vê sua parede oca e chora.
Uma musica lhe corta a alma
E uma criança brinca
E uma criança sorri
E sua parede branca, vazia, oca
Cheia de quadros, fotos e marcas do tempo
Parte
de suas lembranças
Chega
de ficar preso a uma parede
Levanto.
Sua parede branca lhe diz que
é impossível viver preso e que a liberdade não existe.
Entendo
na parede cabe tudo e nada!
As cores da parede branca, ele é quem pinta
E nela cabem quantos quadros ele quiser pendurar.

Costa Pinto

 

 

A parede branca é uma viagem que realizei na sala de minha casa, numa fase boa de minha vida, há tempos.

Os filhos das pedras

Para todos, os lobos uivavam e mostravam os dentes
Criava-se uma negra atmosfera
Para mim, filhos
Nascidos de mãos alheias
Não lobos/só desejo
Deuses das pedras.
Minha Vitória estava por vir
E nas mãos alheias
Nasciam filhos
De dentro das pedras
E suas formas eram parte de mim.
O mundo é um pouco de cada um!
E das pedras saíam filhos
Que saíam de mim
E da perfeita imaginação
Dos que – aos outros olhos- eram lobos
E aos meus – inocentes – eram só
Crianças brincando de ser Deus.
Questiono a dificuldade de ser diferente e o peso de um crime.
Descubro que são filhos
E percebo enfim.
A minha Vitória já chegou!

Costa Pinto

Gosto de escrever para pessoas e precisava escrever algo para Vitória, que gosto tanto, mas é difícil falar de fatos reais.

A dor da beleza

O sol produz sua sombra torta e ela atravessa rua
Os urubus olham com saliva nos cantos dos bicos
Ela sai fazendo bicos (caras e bocas) com os bicos a amostra
Reescreve seus passos, para e volta ao mesmo ponto.
Doze anos de pouca roupa, pouco cuidado. Pouco.

Tentei entender suas formas, seus desejos
Tentei não te olhar nos olhos, ver suas flores
As pedras que compunham criavam muralhas
E a sombra não produz seu verdadeiro ser
Caras como a sua vi na TV
Caras como eu não querem perder
Casas, carros, dinheiro fazem nossas cabeças
Mas os doze, vinte e quatro, trinta e só
Pagam alto preço por perder o ser
E encher a caixa de um muito, de poucos “perfeitos”.
Olhar, chorar, cortar, sangrar,
Chorar por ter – esteticamente – conseguido o céu.
Inferno em quatro paredes.
Você se ataca e se defende
E se fere, e fere você
Busca a si em cada esquina
Lágrimas quando olha a TV
Desfile em frente ao espelho.

-Mude o mundo, mude a si.
E o mundo é só insatisfação.

Costa Pinto

Os textos que faço, sem falsa modéstia, faço para que despertem sentimentos nas pessoas, não preciso explicar o motivo de ter escrito, mas existem curiosidades.
A dor da beleza
é um texto diferente, começa como um conto e tomando forma de poema fala da inquietação do ser humano em relação a si.

Caminho invisível

Alguém disse que é caminhando que se faz o caminho
e suas curvas muito sinuosas.
Mas os caminhos são muitos, e todos sem casa.
Sem paz, eu digo.
Paz de menos é ruim, e de mais, pior ainda.
Faço parte de meu caminho
e parte de mim caminha nas estradas alheias.
Nenhuma delas correta.
Todas elas sem dono.
Sou mais católico hoje
(não entenda como elogio).
Sou mais caótico também.
De benção em benção
me sinto mais amaldiçoado
e acredito menos em tudo.
Esperança é volátil.
Como minha paciência
como meu poder e de tantos outros.
Faço parte de um povo que na verdade não existe
Sou protegido por muros que ninguém ergueu.
Prazer…
Satisfação zero.
Tenho dó às vezes
E ódio de mim por ter dó.
Nem todas as notas mudariam o mundo.
A diferença é guerra!
A indiferença morte!
Não faço parte desse mundo.
Não entendo como alguém pode viver aqui
Não entendo como pessoas acreditam que vivem.
Meu egoísmo me faz cada vez mais meu.
Sou meu!
Tudo é meu – todos são.
O caminho é meu
O seu
Todas as curvas
E desprazeres do dia-a-dia.
Não sei se o tempo
se o lugar
as pessoas
ou tudo.
Talvez eu.
Mas o tempo, o lugar, as pessoas
não são meus.
O caminho sim
é meu, e só meu.
(e de quem cruzá-lo).

Costa Pinto

Quando digo que paz de menos é ruim e de mais pior ainda, falo de algo que sinto.
Gosto muito deste trabalho, de verdade, e para que não haja dúvidas ou certezas incertas, quero esclarecer que não sou católico.